HOMENAGEM AOS 111 ANOS DE NOSSO GRÊMIO

(Discurso na Sessão Solene do Conselho Deliberativo, comemorativa aos 111 anos do GRÊMIO, no Auditório da Arena)

Há várias maneiras de medir o tempo. Os Antigos cravavam um galho de árvore no solo e sua sombra girava com o sol. Inventaram assim o tempo cíclico, aquele que representa os movimentos da natureza, em seu eterno nascer e morrer. O sol nasce, o sol morre, mas apenas para voltar na manhã seguinte. Mais tarde inventamos o tempo linear, aquele que é medido pelos relógios mecânicos e pelos pêndulos, que permitem enfileirar horas às horas e dias aos dias. O tempo é um dado fundamental das nossas vidas. Estamos aqui para celebrar o tempo do clube que amamos, o Grêmio Futebol Porto-Alegrense, que hoje completa cento e onze anos de história, e coube a mim falar desse tempo.

Peço licença para ser pessoal, porque a experiência do tempo é sempre subjetiva. Minha ligação com o primeiro grande ciclo do tempo gremista é meu pai, José Gerbase, alagoano, presidente do Grêmio em 1946, e depois presidente desta casa por mais alguns anos. Meu pai viveu o Grêmio do final do ciclo da Baixada. Um ciclo heroico, feito por visionários, que plantaram uma pequena semente que cresceu e virou uma árvore frondosa. A mítica Baixada, perto do hipódromo, ao lado do tiro alemão, era um ponto de encontro social e esportivo de uma cidade ainda provinciana. Mas que glórias provincianas vivemos lá! Quantos campeonatos, quantas defesas espetaculares de Eurico Lara, quantos lances geniais de Foguinho, quantos desarmes elegantes de Airton, quantos gols empilhados por Luiz Carvalho em cima de outros clubes provincianos, que tiveram a má ideia de desafiar o Grêmio, e se arrependem disso até hoje.

Um novo ciclo começou com a construção do Olímpico. Ao lado de Telêmaco Frazão de Lima, Saturnino Vanzeloti, Adolfo Obino, Renato Souza, Plinio Almeida e de tantos outros grandes gremistas, meu pai ajudou a erguer a nova casa gremista. Eu nasci cinco anos depois da inauguração, e ainda tive a sorte de ver seus grandes heróis e aplaudir um ataque formado por Babá, Joãozinho, Alcindo e Volmir. E de ouvir as histórias sobre Juarez, que levantava uma polvadeira na área até fazer o gol; de Ortunho, um lateral esquerdo tão forte que os pontas-direitas adversários iam jogar no meio-campo; do formiguinha Milton Kuele, que trabalhava como um operário em todos os setores do campo. Que ciclo maravilhoso, feito por gremistas negros como Everaldo, Ortunho e Paulo Lumumba, por brancos como Milton e Joãozinho, e pelo bugre Alcindo. Sim, o bugre Alcindo foi o maior goleador da história do Olímpico. Um Grêmio de muitas peles e de muitos troféus. Um Grêmio que saiu da Baixada para construir uma casa maior, num bairro ainda modesto, mas capaz de abrigar torcedores de todas as raças e de todas as classes sociais.

O Olímpico virou Monumental em 1980, e o nome do presidente, e hoje patrono, Hélio Dourado nunca será esquecido na história do Grêmio por ter inaugurado um novo ciclo de vitórias, agora nacionais e mundiais. É o ciclo de Baltazar; de Renato Portaluppi; de Paulo Isidoro; de Valdo; de De León; de Adilson; de Iúra, o passarinho; de China; de Dinho; de Jardel; de Tarciso; de Valdir Espinosa; de Luiz Felipe Scolari; de tantos outros negros e brancos que fizeram negros, brancos e mulatos vestidos de azul pularem até fazer o Olímpico tremer. Esse ciclo, que reverenciamos até hoje, nos fez sonhar com as estrelas e conquistar o planeta Terra.

Esse ciclo está se encerrando. O velho estádio Olímpio não existirá mais daqui a alguns meses. Aquelas arquibancadas que nos abrigaram vão virar pó, mas não o pó levantado por Juarez, que levava ao gol, mas o pó que emperra o relógio, pára o tempo e encerra o ciclo. Mas que também começa outro.

Peço licença para, daqui em diante, não mais citar os gremistas que integraram a diretoria do clube que todos nós, com nossos defeitos e nossas limitações, tanto amamos. Suas decisões, certas ou erradas, serão julgadas pelo tribunal do tempo, que sempre tarda, mas não costuma falhar. O ciclo da Arena, que estamos apenas iniciando, é o ciclo do nosso presente e do nosso futuro próximo. Leva um tempo para colocar um coração num estádio novo, mas nós saberemos fazer esse coração pulsar cada vez mais forte. Começamos nos aristocráticos Moinhos de Vento, conquistamos o mundo a partir da popular Azenha e agora vislumbramos novos desafios nas ruas ainda misteriosas do Humaitá.

Não peço que amemos a Arena pelo que ela é hoje, um imenso bloco de concreto esperando as mãos e pés que moldarão seu destino. Temos que amá-la pelo que ela será. Temos que trabalhar a cada jogo para que a nossa nova casa receba dignamente todos os gremistas, sem pedir nada a eles além de respeito pelo clube e pelos outros torcedores. A paixão não se compra, nem se aluga. A paixão é emoção que nasce livre e livre deve crescer. Temos que aprender a receber cada vez melhor os torcedores adversários, mostrando que somos civilizados e temos educação. Temos que lutar pela vitória até o último instante, mas aprender com as derrotas e respeitar a alegria alheia. A nossa alegria, a alegria do gremista, não depende do resultado de um jogo, ou de um campeonato. A nossa alegria é a de pertencer a um clube que se orgulha de 111 anos da mais ardente e verdadeira paixão pelo futebol.

Sugiro que nós, gremistas de todos os bairros de Porto Alegre, de todos os municípios do Rio Grande, de todos os estados do Brasil, consideremos a nossa nova casa, a Arena, como uma criança que ainda precisa aprender a falar e a andar. Sugiro que abracemos o bairro Humaitá, que pintou centenas de casas e bares de azul, preto e branco, para receber o Grêmio, com um pai abraça um filho. Temos desafios no futebol, mas também temos compromissos no presente com milhares de pessoas, em sua maioria humildes trabalhadores – pretos, brancos e mulatos – que das suas janelas olham para uma obra que pode significar um futuro mais digno para seus próprios filhos. Somos o Grêmio Futebol Porto-Alegrense, e Porto Alegre ainda vai nos agradecer por tornar mais feliz uma região que estava esquecida e parecia não ter futuro.

O tempo do Grêmio é muito grande, mas o meu é pequeno e já se esgota. Os ciclos que descrevi são bem conhecidos de todos nesta casa, e peço desculpas se fui redundante, mas neste momento, em que pairam sobre o clube acusações injustas, é preciso lembrar o que nossos pais, avós e bisavós fizeram de melhor. Não permitiremos que a memória dos grandes gremistas, da Baixada e do Olímpico, que construíram um clube democrático e acolhedor, seja atingida por aproveitadores mal-intencionados. Ninguém, mas ninguém mesmo, neste estado, neste País, neste mundo, tem o direito de atingir a honra do Grêmio. O sol nasce e o sol morre, mas apenas para voltar na manhã seguinte. O torcedor gremista que olha para o céu, hoje, 111 anos depois que este clube nasceu, sabe que o sol é poderoso, mas que o azul do céu o envolverá para sempre. Este azul que, misturado aos torcedores negros e brancos, faz do Grêmio um clube tricolor. O meu tricolor. O nosso tricolor. Então pode vir, senhor tempo, com qualquer escalação e qualquer esquema. Aqui não serás vencedor. Nós te desafiamos. Aqui a morte não tem vez. Aqui é o imortal. Aqui é Grêmio!

Obrigado.

Carlos Gerbase
Conselheiro do Grêmio e Vice-presidente do Grupo Grêmio Imortal

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