TIMES DE PAPEL

Bons times de futebol começam no território abstrato da imaginação. Os dirigentes (pelo menos os mais competentes) pensam que perfis de jogadores seriam os mais adequados para compor uma equipe forte na defesa, de boa técnica no ataque, sempre veloz e competitiva. O próximo passo geralmente é olhar para os jogadores já contratados e para os jovens da base e tentar imaginá-los dentro desses perfis. Alguns parecem promissores e terão suas chances. Outros parecem incapazes e serão substituídos por contratações. Que, é claro, dependem de quanto dinheiro há em caixa. Ou, até mais frequentemente, de qual é a atual capacidade de endividamento do clube.

Então surge um time no papel. Uma escalação com onze titulares e uns sete ou oito reservas confiáveis. Quem lê essa lista de nomes imagina (de novo) o potencial de produção do time, suas chances de sobreviver na selva das competições e chegar a um título, ou ao menos merecer a disputa e beliscar essa possibilidade. Times de papel são mais importantes que times abstratos, que só existem em sonhos ou em devaneios de dirigentes meio fora da casinha. Times de papel preenchem a súmula e entram em campo. Times de papel são a base para incontáveis horas de debate em programas de rádio e quilômetros de colunas de jornal. Mas times de papel não ganham nem perdem jogos.

Quem lia as escalações de Grêmio e Atlético Mineiro antes do jogo começar, no dia 27 de abril de 2014, só podia projetar um resultado: vitória do Atlético, atual campeão da Libertadores, que tinha no ataque Ronaldinho, Tardelli, Fernandinho e Jô; e derrota do Grêmio, campeão de nada faz tempo, que tinha Alan Ruiz, Rodriguinho, Luan e Lucas Coelho. Com exceção de Luan, todos reservas. A lógica dos times no papel levava a um confronto desequilibrado. Eu temia levar uma goleada e ir para o jogo com o San Lorenzo segurando a alça do caixão do nosso técnico.

Mas, como já escrevi no fim do penúltimo parágrafo, times de papel não decidem coisa alguma. Quem decidiu foi um chute forte de Alan Ruiz cobrando falta. Há quanto tempo o Grêmio não fazia um gol de falta? Salvo engano, quando Pará, em milagrosa tarde de Arce, fez contra o Flamengo, no Brasileirão passado. Cobrar forte e no canto não é fácil. Esse Alan Ruiz, além de fazer o mais importante no futebol, o gol, jogou muito. Sempre com seu estilo, que não sei se é o mais adequado ao Grêmio imaginado pelos seus dirigentes, mas com certeza é mais decisivo que o estilo de Zé Roberto. E, pouco depois, um centroavante mais rápido que os zagueiros fez o seu. Há quanto tempo Barcos não ganha na corrida de um zagueiro? Não lembro. Mas é um tempo longo demais.

O time titular do Grêmio, cuja base foi montada pelo Renato e está procurando uma nova personalidade com o Enderson, é um time razoável no papel, mas decepcionou em momentos decisivos. O time reserva, assustador no papel, enfrentou o Atlético com coragem e apresentou qualidades que estavam esquecidas. Espero que o nosso treinador tenha sabedoria suficiente para incorporar essas qualidades ao nosso time, Primeiro no papel, depois em campo. E, é claro, ficam nossos sinceros agradecimentos aos esforçados rapazes que não deixaram o Ronaldinho jogar – Mateus Biteco e Ramiro – e fizeram a Arena se deliciar com a sua constrangedora substituição.

Carlos Gerbase
Conselheiro do Grêmio e Vice-Presidente do Grupo Grêmio Imortal

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