FUTEBOL COMPARADO

Futebol, como literatura, é uma arte comparativa. Pra saber se um livro – ou um time – é bom, temos que colocá-los ao lado de outros objetos semelhantes. Machado de Assis é bom porque, se o compararmos a José de Alencar, veremos que sua prosa é mais sofisticada; seus personagens, mais complexos; e, principalmente, seus temas são mais interessantes. Ou alguém duvida que Capitu e Bento formam um casal mais bacana que Ceci e Peri?

Depois de três jogos do Grêmio na Libertadores, podemos colocar o time atual, criado por Enderson Moreira, ao lado dos formados por Wanderlei Luxemburgo e Renato Portaluppi. O resultado será quase unânime: o do Enderson é melhor.

A comparação com Luxemburgo é mais fácil porque é Libertadores contra Libertadores. Tanto os resultados quanto as atuações falam por si. Era muito difícil torcer para aquele time burocrático e improdutivo do Luxa. Queria ser sofisticado como Machado de Assis, rolando a bola de um lado por outro, e só conseguia ser chato como José de Alencar.

O cotejo com o time de Renato Portaluppi é mais complicado. É Libertadores contra Brasileirão. Mas é inegável que o Grêmio de Renato enfrentou adversários igualmente poderosos e se saiu muito bem. Era um time quase retrancado, que levava poucos gols e fazia apenas os suficientes para ganhar a partida. Lembro do Renato sempre pedindo calma: “Nós temos 90 minutos para ganhar”. Os torcedores também tinham que ter muita calma.

Enderson Moreira herdou várias estruturas criadas por Renato, em especial o trio de volantes-mas-não-tão-volantes. Era Souza-Riveros-Ramiro, agora é Edinho-Riveros-Ramiro. Se ganhar o meio campo é meio caminho andado, esses trios são uma boa ideia para alcançar esse objetivo. Mas, se na defesa é quase a mesma coisa, há uma diferença muito grande na forma com esse trio se articula com os atacantes.

Em primeiro lugar, Enderson não usa o 3-5-2 de Renato, que foi bastante útil, mas deixava o time pouco agressivo. Além disso, o trio de volantes de Enderson tem a mesma autorização dada por Renato para chegar na frente, com uma abissal diferença: agora eles têm Luan (e às vezes Dudu) para lançar ou passar a bola. Luan tem velocidade. Ele não dá as costas para o volante adversário, como fazia Kleber. Ele gira e tenta progredir. E, consegue fazer isso várias vezes durante a partida. Luan é aquele parágrafo genial numa história que já estava bem escrita.

E o Zé Roberto? Esse é o mesmo de sempre. Muito técnico, muito craque e pouco decisivo. Se meche muito, defende, ataca, articula. É um jogador útil. Mas ali precisávamos de um jogador decisivo. Estou curioso para ver o Alan Ruiz começando uma partida, o que vai acontecer nos próximos 30 dias. E o Barcos? Discursos sobre centroavantes não valem nada. Barcos tem que fazer gols. Se não fizer, se continuar perdendo gols como contra o Newell’s, estamos em má situação. Mas eu acredito na capacidade de Barcos. Ele não é Machado de Assis, mas também não é José de Alencar.

Depois de três jogos, com três boas atuações, já sabemos o mais importante. Talvez o Grêmio ganhe a Copa, talvez não ganhe (dúvida cruel, como a de Bento em relação a Capitu…), mas ele vai merecer a competição. Como não canso de repetir, é isso que o torcedor exige.

Carlos Gerbase
Conselheiro do Grêmio e Vice-presidente do Grupo Grêmio Imortal

Comente