SALVARAM MINHA NOITE

É muito difícil trabalhar no verão em Porto Alegre.

O calor é insuportável, desmentindo a classificação de clima temperado.

Os colaboradores e parceiros, todos, querem tirar férias ao mesmo tempo. Os que ficam, por imposição, espicham o beiço e, com cara de militante da Geral em dia de Gre-Nal, desafiam: “Eu não ganho pra isso”.

Nos clientes públicos, as decisões ficam postergadas, principalmente aquelas relacionadas com pagamentos: “A Câmara ainda não aprovou o orçamento 2014”. Só não ficam postergados os prazos. Eu tenho que cumpri-los, sem receber e com os colaboradores em férias, ou beiçudos.

De minha parte, como queria estar na praia, com minha Namorada, assim, com letra maiúscula pelos 45 anos de convivência amorosa e harmoniosa, meus filhos, netas, afilhada, a Governanta, assim, também com letra maiúscula pelos 40 anos de parceria, noras – acreditem, sinto saudades delas – e o gato Tarciso. Na praia, mexendo no jardim, brincando de marceneiro ou tomando cerveja numa mesa de Gremistas no Bar do Tato.

Não há espírito de tolerância que me faça ficar bem humorado no verão de Porto Alegre nem em atuações medíocres do Grêmio em jogos enfadonhos do Gauchão.

Pois foi com o “humor da vaca” que cheguei à Arena ontem. É calor lá; não corre vento.
Padrão FIFA não tem ar condicionado?

No intervalo o “humor já era do touro”, e dos brabos. Para agüentar as limitações do esforçado Pará, as grossuras do Bressan, os “lançamentos” dos zagueiros ou do Edinho – saudades do Sérgio Lopes e do Dinho, para os mais novos – a falta de criatividade do nosso meio-de-campo, as teimosas bolas recuadas, os bundaços inúteis do Cleber e a falta de colocação do Barcos, só na praia ou com ar condicionado. Quase explodi, enfartei, quebrei o dedão na cadeira da frente – ou a porcaria da cadeira, mais frágil do que o dedão.

Felizmente deixaram jogar Luan, Jean Deretti e Wendell. Como é lindo ver jogadores leves, dribladores, ágeis e, principalmente, com capacidade, coragem e audácia para o enfrentamento. Para “ir dentro do adversário” e passar sem que ele perceba por onde. Este é o Futebol Brasileiro, criativo, debochado, alegre.

Deixem eles jogarem para a alegria dos que amam o futebol bem jogado, enquanto não aparecer um Europeu, Árabe ou Asiático com as bolsas cheias de dinheiro, nem tanto porque nossa pobreza não exige.

Por favor, não lhes ponham músculos, nem exagerem nas obrigações táticas. Deixem-nos livres, leves, soltos e velozes, para a nossa alegria.

Precisamos preservá-los assim, porque eles salvaram a minha noite. Não sei o que seria de mim no verão de Porto Alegre e diante da mediocridade do nosso time.

Paulo R.F. Ferrer

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