BARCOS: CENTROAVANTE

Ele não jogou coisa alguma no primeiro tempo. Disputou na cabeça, de costas, com os zagueiros do Corinthians e perdeu todas. Buscou jogo na intermediária e não encontrou. Tentou dar passes e acertou muito poucos. Ouviu vaias. Deve ser muito chato ser vaiado quando se está fazendo de tudo para acertar. Barcos corria, suava, marcava. E só errava. No seu momento mais terrível, tropeçou e caiu sozinho quando tentava arrancar com a bola. Um torcedor gritou atrás de mim: “Tira esse cara, Renato!” Ele nem tinha mais nome. Não era o Barcos. Muito menos o pirata. Era simplesmente “um cara”.

Renato, contudo, é um treinador inteligente. Não pensem que o Grêmio está onde está por acaso. Renato deu personalidade para um time que não tinha cara: nem coragem ofensiva, nem pegada defensiva. Era uma meleca clássica indefinida. Tirou do time um craque que tinha boa dinâmica de jogo, mas raramente decidia (Zé Roberto) e um craque que tinha maior poder de decisão, mas não tinha suficiente dinâmica (Elano). Ele ligava e desligava durante os jogos. Renato percebeu que, para mudar o Grêmio, tinha que mudar radicalmente o meio campo.

O único jogador que pediu, Rhodolfo, entrou na zaga e virou o xerifão que o time precisava lá atrás, mostrando o caminho das pedras pros mais jovens. Colocou Ramiro, um jogador incansável, ao lado de Riveros, um jogador que conhece todos os atalhos. E, é claro, completou o triângulo com Souza, que tem uma regularidade impressionante. Nenhum deles é craque. Mas, juntos, fecham o time com máxima eficiência. E os três sabem avançar e eventualmente ameaçar o adversário.

É um esquema que exige o máximo de cada jogador, física e tecnicamente. Neste jogo com o Corinthians, a simples presença de Adriano (em vez de Riveros) fez uma grande diferença. Adriano sabe desarmar como Riveros, mas não sabe armar como o paraguaio. No primeiro tempo, a pobreza ofensiva do Grêmio foi exasperante. Além disso, quanto mais Barcos tentava armar, mais afundava. Longe da área, Barcos é um jogador comum. E ele veio pro Grêmio para ser centroavante: “o” cara, e não “um” cara.

Renato mexeu certo. Tirou um zagueiro e colocou um armador que, teoricamente, nem amarra as chuteiras de Zé Roberto e de Elano. Mas tem dinâmica, tem objetividade e tem uma imensa ambição. Maxi Rodrigues é um possível futuro pro Grêmio. E o jogo mudou pra melhor. O gol surgiu porque Maxi sabe passar e porque Barcos, finalmente, estava bem posicionado para receber a boa na área. Estar bem posicionado e fazer gols é o que se espera de um centroavante. Ele pode, até deve, fazer outras coisas, mas primeiro tem que fazer gols.

Com o gol feito, bastava não dar mole, como deu contra o Fluminense. E desta vez o Grêmio soube prender a bola e enrolar o jogo. Numa confusão na área do Corinthians, Barcos quase fez outro. Mas, antes de tudo isso, Renato manteve sua convicção no centroavante, no capitão do time, em vez de queimá-lo, talvez para sempre. Paulinho e Coelho podem ser bons jogadores no futuro próximo, mas hoje o 9 do Grêmio se chama Barcos. E aposto que ele já está pensando em fazer um gol no Grenal do próximo domingo. Pra fazer, basta que ele não esqueça sua profissão: centroavante.

Carlos Gerbase

Conselheiro do Grêmio e Vice-presidente do Grêmio Imortal

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