GRÊMIO COM CARA DE GRÊMIO DERROTA SANTOS SEM CARA DE SANTOS

Escrevi neste site, um tempo atrás, que o Grêmio de Luxemburgo até poderia ser vencedor, mas a vitória não viria com a cara do Grêmio. Era um time clássico, lento, que trocava a bola de um lado pro outro e dependia de  um lampejo de criatividade de Zé Roberto, ou de uma atuação particularmente inspirada de Barcos (coisa cada vez mais rara). Por isso saudei a chegada de Renato, achando que ele poderia, mais cedo ou mais tarde, nos devolver o Grêmio copeiro que todos temos na lembrança.

Ontem, no final do jogo em que eliminamos o Santos, fiquei feliz por dois motivos: vamos adiante na Copa do Brasil e o time tem, outra vez, a cara do Grêmio. Lá em Santos, marcamos em cima, jogamos melhor, tivemos chance para vencer e perdemos no detalhe. Acontece, é do futebol. Às vezes a bola entra por acaso. Mas a lógica, a médio e longo prazo, acaba se manifestando. Um time guerreiro, que alia força de vontade, boa organização e alguns jogadores de qualidade superior vai ganhar mais que perder.

A opção pelos três zagueiros saiu da cabeça do Renato. Ele sabia que perderia alguma coisa para ganhar muitas outras. Ganhou uma boa defesa, que pode falhar individualmente, mas funciona bem como peça coletiva. Ser inteligente é isso: ver onde os ganhos superam as perdas e apostar com convicção nas mudanças. Escrevi aqui que o Renato era inteligente, além de motivador, e os resultados parecem confirmar minha opinião. Se alguém acha que um time ganha tantas partidas seguidas por sorte não entende nada de futebol.

Hoje temos um time bem montado com imensa vontade de ganhar. Pode perder daqui a pouco, mas a torcida já voltou a ter confiança, e a Arena ontem parecia o velho Olímpico. A alegria voltou para o vestiário, para as arquibancadas, para a Geral e para todos os outros setores da torcida. Essa é a cara do Grêmio, que o Luxa dizia querer esculpir, mas não conseguia moldar, porque suas mãos são refinadas demais, clássicas demais, e o barro tricolor exige uma certa dose de animalidade, instinto, paixão.

É claro que  o Santos também ajudou. O Santos histórico era um time que jogava no ataque e apostava nas tabelinhas velozes entre jogadores que só pensavam em fazer gols. Quando o Montillo, único capaz de recuperar um pouco do espírito santista, saiu lesionado, o destino do jogo foi selado. O Santos virou um amontoado de jogadores que só pensavam em não levar gols. E levou, é claro. Os covardes serão punidos, disse São Football,  e os destemidos herdarão os campos elísios dos títulos imortais e das alegrias eternas. Saravá, São Football!

Uma última palavra sobre Souza. Eu o considero um jogador excepcional:  tem força, mobilidade, boa técnica, sabe defender e atacar. Com a saída de Fernando (outro que tinha quase as mesmas características), foi recuado por Renato para a primeira posição. Não reclamou, não chiou, aceitou o desafio e está cumprindo. Teve oscilações, teve que reaprender uma certa disciplina tática do jogo de contenção, mas reaprendeu muito rápido. São Souza, padroeiro dos três reis magos da zaga, orai por nós! E continuai aparecendo de surpresa na área adversária, que a surpresa é a melhor maneira de penetrar num lugar em que não se é bem vindo, sem disparar tiros ou usar a faca, coisa que os ingleses sabiamente eliminaram desse esporte tão primitivo, brutal e apaixonante.

Carlos Gerbase
Conselheiro do Grêmio
Vice-Presidente do Grupo Grêmio Imortal

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