A VOLTA DE PORTALUPPI

Conheci Renato Portaluppi mais de perto por conta de uma longa entrevista que fiz com ele para o filme “1983 – O ano azul”. É claro que ele era o personagem principal do filme, e a produção, auxiliada pelo próprio Grêmio, fez um grande esforço para colocá-lo no documentário. Na época da gravação, ele estava treinando o Vasco da Gama e fomos encontrá-lo num hotel de Belo Horizonte, onde o Vasco jogaria no dia seguinte.

Quando sentou na cadeira em frente à câmera estava sorrindo e assim permaneceu quase todo o tempo. Quem pensa que ele é um “bad-boy”, ou um sujeito difícil de lidar, não o conhece direito. Ficamos quase duas horas conversando sobre aquele ano mágico e sobre o seu desejo de treinar o Grêmio, o que aconteceria pela primeira vez algum tempo depois na gestão Duda Kroeff.

Educado, solícito, inteligente e com muitas histórias para contar, Renato consegue manter sua simplicidade mesmo quando fala de seus grandes feitos como jogador, cujos méritos divide sempre com seus companheiros dos anos 80, em especial com Valdir Espinosa. Saí da entrevista com a convicção de que ele seria um bom técnico para o Grêmio.

Todo mundo sabe o que aconteceu em sua primeira passagem: uma grande arrancada no brasileiro, com uma equipe forte na defesa e rápida no ataque (ou seja, com a cara do Grêmio) e uma Libertadores complicada, em meio a atritos na relação com o presidente Paulo Odone. Resultado: desclassificação precoce. Também ficou ruim para ele a divulgação de seu diálogo com o jornalista Jorge Cajuru, antes de um jogo do Grêmio no Peru, em que admitiu haver chances de transferir-se para o Fluminense.

Alguns dias depois, pediu desculpas pela sua atitude impensada. “Errei”, disse em entrevista coletiva, e admitir o erro é o melhor caminho para voltar a acertar. Renato Portaluppi está de volta, e eu aposto que ele fará um bom trabalho. Mais maduro, com certeza mais previdente, com certeza disposto a ganhar títulos, ele vai encontrar-se com outro grande vencedor, Fábio Koff, e trabalhará ao lado de seu amigo Rui Costa e de Marcos Chitolina.  É um bom grupo para comandar o futebol, aliando experiência e juventude.

Ninguém tem bola de cristal para saber se o Grêmio voltará a vencer, mas é preciso tomar posição quando as escolhas são feitas. Gostei da contratação de Renato, confio no seu trabalho e, se ele tiver o mesmo tempo que teve nosso técnico anterior, aposto que seus resultados serão melhores e virão mais rápido. Vai errar em algumas coisas, mas acertará no essencial: devolver ao Grêmio uma maneira de jogar mais próxima de nossa tradição vitoriosa.

Quanto ao Luxemburgo, que se esforçou para entender o Grêmio e fazer um bom trabalho, creio que foi derrotado pela sua arrogância, pelo seu excesso de orgulho (a terrível “hibris” das tragédias gregas), que chegou ao ápice quando, depois do jogo contra o São Paulo, disse que os torcedores do Grêmio não podiam assistir aos jogos na Arena de terno e gravata, como simples assistentes de um espetáculo. Ora, a única pessoa que ia para a Arena de terno e gravata era o próprio Luxemburgo!

Ele vai crescer um pouco no meu conceito se, inteligentemente, anunciar que abre mão de sua multa contratual (ou pelo menos de parte dela). Não se trata de uma questão moral, e sim profissional: provará que não estava aqui apenas pelo dinheiro, e sim pela perspectiva de ser vencedor, o que não aconteceu.  E logo achará outro clube para treinar. Quem contrata um técnico que, em um ano e meio, recebendo quase todos os jogadores que solicitou, não ganhou coisa alguma e tirou mais 6 milhões de reais do clube depois de sua saída?

Bem vindo, Renato Portaluppi. Estarei na Arena para aplaudi-lo e para torcer pelo nosso Grêmio. Não sei se seremos vencedores, mas sei que vais encontrar os caminhos para devolver aos torcedores o orgulho de ver um time brigador e, ao mesmo tempo, técnico. Chega de terno Armani. Que volte o jeans apertado, para delírio das gremistas. E vamos em frente!

Carlos Gerbase

Conselheiro do Grêmio
Vice-Presidente do Grupo Grêmio Imortal

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