ANAMNESE, EXAME FÍSICO E DIAGNÓSTICO

No intervalo do Grêmio e São Paulo, na Arena, um repórter me perguntou ‘qual o diagnóstico para o que está ocorrendo com o time?”

Confesso que não soube dizer. Ou sequer me vi autorizado a fazer as mesmas conjecturas que a imprensa realizara após uma má atuação. Respondi que estava preocupado com a visível ausência de uma equipe no campo de jogo. E estou. Futebol, é preciso informar aos jogadores do Grêmio, é um esporte coletivo.

Pois me coloco agora no papel de médico, então. Espero que daqueles clínicos que são capazes de perguntar e ouvir mais ainda, em um silêncio que mescla mistério com reflexão.

A anamnese é essencial para a busca do diagnóstico certeiro. Estima-se que 85% do êxito na investigação de uma moléstia reside na boa técnica de perguntar ao paciente coisas sobre o seu passado, histórico da família e queixas atuais.

O paciente é o Grêmio. E as entrevistas após o jogo nos dão elementos interessantes, ainda que sem novidades. Este modo de atuar do time vem se repetindo e as entrevistas idem.

O Presidente Koff disse com lucidez e sinceridade que não estamos tendo boas atuações. Mas mais importante, porém, foi a repetição de frases “a equipe precisa jogar com espírito de solidariedade” , “é essencial que um atleta queira ajudar o outro ao seu lado” e  “só o tempo trará isso”.

Montagem de grupo leva tempo, eu sei, e o Grêmio, como tenta montar um por ano, perde.

Ocorre que estamos em junho e a base do elenco, junto com a mesma comissão técnica, trabalha há mais de um ano.

Seguindo a proposta da anamnese, flagro na entrevista do treinador a reiterada queixa de que necessita de tempo. Que com a sequência irá melhorar o desempenho, o entrosamento chegará e as vitórias surgirão. Pelo menos ele já não está mais se vacinando. Não disse que “o Grêmio precisa perder este campeonato para ganhar o próximo” – discurso que vinha adotando desde o ano passado, a cada infortúnio.

Esforçando-me para ter a melhor técnica de um bom clínico geral, interpreto a manifestação do treinador com preocupação. Não pode, após mais de um ano, estar buscando um padrão de jogo, um entrosamento da equipe e uma unidade do grupo. Estranho que no ano passado ele conseguiu encontrar uma forma de jogar e tirar do grupo, no meu modo de ver inferior ao de 2013, uma boa campanha no Brasileirão. Verdade, não ganhamos. Assim como entregamos para o Palmeiras a Copa do Brasil, e para o Millonarios a Sul Americana. Isso muito por culpa da sua aparente incapacidade de enfrentar jogos decisivos. Ele inventa sem ser bom nisso. Quer ser criativo ou parecer genial e, via de regra, erra. Erra feio. Mas conseguiu montar uma equipe em 2012.

Da análise do time em campo faço o exame físico. Este, somado a anamnese, forma o chamado exame clínico. Segue a busca pelo diagnóstico.

No primeiro tempo, não sei se decorrente da invenção na escalação ou do fato de que os jogares atuaram como se futebol não fosse um jogo coletivo, a atuação do Grêmio mereceu nota 2. E este 2 eu dou em homenagem aos meninos da defesa e ao volante, substituído no intervalo. Estes, mesmo diante das suas limitações, que não são poucas, tentaram fazer o time andar. Basta lembrar que Werley e Bressan, que mal e mal conseguem ser uma dupla de zaga confiável – ainda podem evoluir muito – fizeram inserções no campo de ataque. Sem esquecer que o Adriano, na minha opinião um jogador interessante, corria sozinho por todos os buracos no meio campo. Por vezes sequer tendo para quem passar a bola.

Cogito que a dita escalação tratou-se de uma afirmação pública do discurso do treinador, de que iria fazer um revezamento de alguns jogadores. Quis confirmar a própria tese. Errou feio, mais esta vez, tentando algo que sequer havia treinado.

O segundo tempo melhorou. O time teve aquilo que se tem usado chamar de atitude. Aliado a boa qualidade técnica dos jogadores do meio para a frente, conseguimos amedrontar o São Paulo – equipe inconstante desde o início do ano – e chegamos ao gol quando aparentemente já apresentávamos fadiga física.

Diga-se, o aspecto físico atlético é um sintoma que merece ser melhor investigado. Há muito o time parece cansar no final dos dois tempos de jogo. O que pode demonstrar não uma falta de capacidade de suportar os 90 minutos, mas sim a ausência de força, explosão e condição de manter este padrão por maior tempo possível, sem fadiga e necessidade de recuperação.

Fato é que o time reagiu, e ao contrário do que se viu no primeiro tempo e em outros jogos, os atletas foram solidários. Deslocaram-se para receber a bola. Jogaram mais coletivamente.

Vou avançar, me atrevo, no diagnóstico para a má atuação deste e de jogos anteriores: Falta de ambição.

Em qualquer atividade é necessário o desejo da conquista. Ou melhor ainda, a necessidade da conquista. Com isso os treinos são mais produtivos, a preparação física colhe melhores frutos e o espírito de grupo aflora no desejo de um ajudar ao outro.

Aquele que já tem a vida ganha pode não ter mais a mesma paciência para estar concentrado em hotéis a maior parte da semana, obstinação para enfrentar treinos diários não importando o clima ou a disposição física e de humor ou a tolerância para se submeter a entrevistas e críticas, fundamentadas ou não.

E não adianta pensarmos que ganham muito para isso. É preciso analisar cada profissão com a sua dimensão e de forma correlata. Os seres humanos são muito parecidos.

No futebol, não raras vezes esta ambição surge da adversidade. São profissionais que se criaram na competitividade diária. Na base, dentro do grupo, contra os adversários. Aqueles que possuem fibra e não gostam de perder, reagem na dificuldade. O importante é ter jogadores assim.

Qual o tratamento, então?

Primeiro, o treinador precisa definitivamente parar de dizer que queremos ganhar o campeonato que ainda não começou. O foco é agora. O desafio é agora. É neste ano.

Segundo, a diretoria precisa seguir a linha de mesclar atletas consagrados com meninos cheios de coisas para conquistar na vida. Isso cria o espelho. O ambiente fica impregnado de vontade de ganhar. Um pelo outro. Sentido de grupo. Louvo as atitudes da diretoria neste sentido.

Terceiro, precisamos identificar dentre os atletas consagrados aqueles que possuem capacidade de indignação. E de forma natural construir uma liderança mais nítida desses. Agrada-me a raça com que o Elano entra quando estava no banco. Por que não inicia um jogo assim?

Quarto, o tempo de convivência de vestiário irá ajudar. Mas precisa ser trabalhado no sentido da obstinação e da necessidade de vitórias.

Quinto, é necessário fazer uma avaliação física do grupo. O Barcos chegou ao Grêmio com muito mais força e explosão muscular do que está agora. E não falo apenas da eventual troca de método ou planejamento. Talvez a questão seja mais uma vez de ambição e motivação nos treinos.

O prognóstico não me atrevo a dar. Sou sempre acusado de ser otimista. Tendo a achar que vamos melhorar muito. Acredito na capacidade do Presidente Fábio Koff.

Como um médico que nem sempre quer revelar ao paciente tudo sobre o desenvolvimento da doença, prefiro responder apenas o que me for perguntado. E estar sempre na Arena torcendo e dando a minha contribuição. Eu sou gremista. Tenho ambição.

Juliano Ferrer

Sócio do Grêmio e do Grupo Grêmio Imortal

1 comentário para “ANAMNESE, EXAME FÍSICO E DIAGNÓSTICO”

  1. Ricardo Barreira Orling disse:

    Boa análise!
    Acho que o fator anímico, de motivação, de vontade e de ambição, é o que está deixando o Grêmio em uma faixa de atuação inferior a sua real capacidade. Acredito que a maior parte da responsabilidade por cobrar isto dos atletas é do treinador! E está ficando cada vez mais perceptível que o Luxemburgo não conta com o apoio total e irrestrito dos jogadores para os objetivos da temporada, ou seja, não tem o grupo nas mãos.
    Espero uma reação anímica do grupo para este segundo semestre de 2013, nem que seja às custas de troca do treinador!
    Abraço

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