SOBRE CORNETAS E OUTROS INSTRUMENTOS DE SOPRO

Não sei de onde surgiram os termos “corneta” e “corneteiro” no futebol, mas sei o que eles significam. “Tocar corneta” significa falar mal de seu próprio time, de seu técnico, de seus dirigentes. E “corneteiro” é o sujeito que, quando o time está mal (ou supostamente está mal), acha que já identificou os culpados e pede que as suas gargantas sejam cortadas. Ele faz barulho, toca a corneta, enche o saco, para que alguém tome alguma providência que ele mesmo não pode tomar.

Os corneteiros, na visão dos torcedores que, emocional e irracionalmente, apóiam o time em qualquer circunstância, são traidores, são quinta-colunas, pois criam crises e prejudicam o ambiente. Até o dia em que, é claro, a emoção e a irracionalidade, depois de uma derrota especialmente importante, os fazem gritar na saída do vestiário, pedir a cabeça do técnico já separada do corpo e, se possível, arrumar uma briga com a brigada e seus cavalos.

Não gosto de corneteiros. Muito menos de cornetas. Elas têm um som irritante e me fazem lembrar o longo ano em que servi ao Exército (e ao País, se você, caro leitor, considera que limpar banheiros e pagar contas em bancos é servir ao País). Por outro lado, nunca fui um torcedor absolutamente irracional. Sou capaz de detectar erros e tentar não repeti-los, que é a maneira mais eficiente de aprender alguma coisa, tanto na ciência e nas artes, quanto no futebol. Por isso, aproveito esses momentos após a derrota para o Atlético Mineiro – com dois gols de Ronaldinho, pois desgraça pouca é bobagem – pra tocar uma série de outros instrumentos de sopro.

TROMPA – é aquele redondo, cheio de curvas, que anima caçadas à raposa, feitas em velozes cavalos que sabem galopar e pular obstáculos. Vou tocar uma trompa com toda força nos ouvidos do Elano e do Zé Roberto, pra ver se eles acordam e começam a correr atrás de galos, raposas, peixes e demais animais desse Brasileiro. Ou então que montem num cavalo que galope de verdade. No jogo de hoje, estavam em pangarés.

CLARINETE – é um fininho, de som agudo e choroso. Vou tocar esse na despedida do Fernando. Ele vai fazer falta. É veloz, sem deixar de ser forte. É técnico, sem deixar de ser raçudo. É habilidoso, sem deixar de ter coração. É carregador de piano sem deixar de ser pianista. Merece um pungente solo de clarinete se for embora. Se ele ficar, convoco um naipe inteiro de metais pra fazer uma festa.

TROMBONE DE VARA – no próximo pênalti contra o Grêmio, vou ficar atrás do gol e tocar com toda a força. O Dida não vai ouvir, é claro, mas a vara (do trombone) vai bater nas suas costas e talvez ele pelo menos se aproxime da bola quando ela estiver entrando no gol.

FAGOTE – é aquele bem cumprido, de som grave, mas ao mesmo tempo engraçado. Vou tocar fagote na casa do Kleber, pra ver se ele descobre que jogar futebol, especialmente no ataque, exige uma dose de malícia e bom humor. Se o Barcos aparecer na casa do Kleber (o que é improvável, pois eles não se conhecem), chamo alguém pra tocar tango num bandoneon, que não é instrumento de sopro. Mas não tem problema: o Barcos também não é mais centroavante… Foi visto pela última vez tocando oboé no grande círculo.

TUBA – é aquele imenso e muito pesado, de som extremamente grave e soturno. Não vou tocar a tuba. Vou entregar pro Luxemburgo e pedir pra ele assoprar. Se ele conseguir tocar o hino do Grêmio, do começo ao fim, e cantar ao mesmo tempo, sem errar a letra, vou acreditar que ele vai arrumar esse time e, contra tudo e contra todos, fazer o Grêmio campeão. Toca aí, Luxa! O povo gremista confia em ti!

FLAUTA – todo mundo sabe o que é tocar flauta. Então vamos lá: caro e inexistente leitor colorado, teu time está atrás do meu, fez 6 míseros pontos, e o Dunga está ainda mais perdido que o Luxemburgo.

A flauta, hoje, é o meu instrumento preferido. E os corneteiros que fiquem nos seus quartéis.

Carlos Gerbase

Conselheiro do Grêmio

Vice-Presidente do Grupo Grêmio Imortal

3 comentários para “SOBRE CORNETAS E OUTROS INSTRUMENTOS DE SOPRO”

  1. Paulo Ferrer disse:

    É difícil para um engenheiro comentar um texto do Gerbase. Aprendemos muito na passagem sofrida pela Escola, mas nada que nos levasse a ter tal sensibilidade. De música, entendo um pouco de percussão; de instrumentos de sopro, quase nada. Por gostar de percussão, gostaria que tivéssemos defensores que também soubessem tocar caixa, cacheta, tarol, e não somente bumbos, que fazem a indispensável marcação mas não dão o toque harmonioso que facilita a vida dos demais instrumentos. Isto tudo no dia em que o Luxemburgo transformar este time numa orquestra, com a Graça de Deus.

  2. Juliano Ferrer disse:

    Muito boa a opinião e o texto. Pior é que com todos estes instrumentos, o time não toca nem uma canção de ninar. Fomos muito mal, ontem.

  3. Gilberto disse:

    Expetáculo de texto, Gerbase. Só mesmo alguém com tamanha percepcão para escrevê-lo nesse momento de indignação pela falta de atitude, entrega, entrosamento, etc, de nosso time. Abraço

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