FÁBRICA DE CRAQUES OU DE MONSTROS?

Um ensaio sobre as categorias de base do Grêmio.

No dia 13 de março de 2012, o nosso Grupo Grêmio Imortal, junto com a Perestróika, disponibilizou à seus integrantes e amigos uma palestra ministrada pelo Jornalista Eduardo Cecconi,  com o título Assim joga o Grêmio. Independente da distribuição tática dos times campeões no Grêmio, seja 4-4-2 ou 3-5-2, o que o Cecconi salientou em todas as suas falas era a intensidade com que o time jogava na época dos títulos. Essa intensidade que fazia os olhos dos presentes brilharem, na minha opinião, está totalmente ligada a duas questões: garra, para acreditar, e disciplina tática, para conseguir desenvolver em campo o que foi previamente combinado.

É óbvio que, para se ter um time intenso é preciso ter jogadores intensos e, quando reflito sobre a possibilidade de “ensinar” um jogador a ter garra, me parece impossível de ser feito com um profissional. A disciplina tática, de repente se consegue com muito esforço, mas garra não. Assim, por acreditar que tanto garra como disciplina tática podem ser culturalizadas em jovens, para se ter jogadores com essas duas características no Grêmio há duas opções: a) garimpar e comprar; e b) formar nas categorias de bases.

Desta forma, neste ensaio, me prenderei na segunda forma, pois essa é a que impacta diretamente o Futuro do Grêmio. Falarei sem o conhecimento interno do departamento de futebol amador, pois o que tenho são apenas as minhas percepções e observações externas e, como disse no meu primeiro “post” nessa coluna, “sem nenhuma reserva mental”.

As categorias de base do Grêmio são uma fabrica de craques ou de monstros?

Pergunto, pois basta prestar um pouco de atenção nas sociais do Olímpico para notar os bandos de moleques, entre 12 e 16 anos, desfilando como periquitos com cabelos arrepiados e descoloridos, enfeitados com adornos dourados pendurados em todo o corpo, preocupados com tudo, menos em acompanhar o jogo dos profissionais. Essa atitude me transparece a total indiferença com o clube, mas é culpa deles? Acredito que não. A culpa é do Grêmio que não consegue criar um vínculo afetivo com esses moleques que são tratados como profissionais, ou pior – como craques, desde muito cedo. Sem a identificação, como eles vão introjetar a característica do clube que amamos… a de jogar sempre como garra? Sempre de forma intensa?

Que a parte tática não é trabalhada como deveria nas categorias de base, é evidente. Basta notarmos que os treinadores do profissional, além de preparar a parte psicológica do jogador jovem a ser lançado, precisam ensiná-lo tudo a respeito de posicionamento, formações e até fundamentos básicos. O jogador jovem é unicamente lançado por suas qualidades técnicas individuais (velocidade, drible, desarme). O Grêmio não tem uma cultura tática institucional e isso é um dificultador para lançar jogadores. Por isso, que o Grêmio lança na maioria, marcadores,  volantes e zagueiros, pois a parte física é mais fácil de trabalhar do que a tática. Mas isso, deixo para experts do futebol analisarem… vou concluir sobre o outro lado, a tal garra e identificação com o clube.

Temos no Planejamento Estratégico do clube valores importantes, destaco: Valorização da história, Espírito vencedor, Unidade e comprometimento e Doação, amor e paixão pelo Clube. Estes precisam ser trabalhados com nossos jovens jogadores desde o início de sua relação com o Grêmio. O Gremio precisa assumir o papel de educador e formador de pessoas que o é. O Jovem precisa sentir que faz parte de uma cultura clubística vencedora e aguerrida e não somente da cultura comum do futebol profissional. Isso se conquista trabalhando mais a cabeça do garoto e não só o corpo. Como fazer? Seguem algumas sugestões:

- Desenvolver um programa de formação do atleta desde as primeiras categorias, para que se torne cada vez mais raro o fato de um jogador formado em um time menor, da mesma idade, ser melhor que os nossos;

- Valorizar mais a garotada do próprio Rio Grande do Sul;

- Programas de disseminação da história do clube;

- Transparecer através de programas extra-campo a história campeã do Clube;

- Palestras com jogadores campeões, ou mesmo incluir esses vitoriosos nas comissões da base;

- Disponibilizar ambientes inspiradores que destacam as características valorizadas no clube; e

- Maior zelo nas questões profissionais. Um salário de R$ 50 mil pode destruir a cabeça de um garoto de 17 anos.

Não estou dizendo que tudo está errado, mas vejo um GRANDE problema quando no atual time titular só um jogador é da base, o Fernando.

Guilherme Schulze

3 comentários para “FÁBRICA DE CRAQUES OU DE MONSTROS?”

  1. Luiz Eduardo Barbosa disse:

    Acho que a garra ajuda, mas quem ganha campeonato é a técnica. Renato Portaluppi tinha raça, mas só fez os gols porque conseguia driblar os zagueiros uruguaios e alemães. Chega de formar Wiliam Magrão, Adilson, Mailson, etc… Voltemos a formar atacantes como Renato.

  2. Paulo Ferrer disse:

    Interessantes, oportunas e merecedoras de reflexões as observações. Não há dúvida que as coisas não andam bem na base, e não é de hoje. Atentem para o fato de que Alcindo Martha de Freitas foi o último grande centro-avante que saiu de lá, no início dos anos 60. Os times vencedores do Grêmio sempre tiveram vários jogadores “da casa” e agora, como bem salientou o G. Schulze, só Fernando.

  3. Guilherme,

    Pelo menos desde 2008 (quando comecei a perceber essa questão), tenho observado na Social que é muito fácil reconhecer os guris das categorias de base porque eles são fardados de Nike e Adidas de alto a baixo, chegam atrasados, saem mais cedo, atendem celular (alguns com mais de um) e namoram nas arquibancadas. O que eles menos fazem é assistir aos jogos.

    Coincidentemente, pelos sotaques, é difícil algum desses candidatos a jogador profissional ter sotaque gaúcho. Antes de qualquer outra coisa, como cientista social, nego veementemente as existências filosófica, antropológica e/ou genética da superioridade de uma cultura qualquer sobre outra(s). O lugar onde nasceu e o sotaque definitivamente não definem esforço, garra, técnica nem força. Do contrário, não haveria tantos jogadores africanos de sucesso na Inglaterra nem tantos eslavos de sucesso espalhados por grandes clubes em todos os países de ponta da Europa Ocidental.

    O xis da questão refere-se à intensidade e à qualidade didática, psicológica, histórica, técnica e tática da formação: esses fatores multidisciplinares, quando bem trabalhados, desfazem qualquer preconceito ou estereótipo relacionado à etnia, religião, escolaridade ou origem geográfica de qualquer jogador em potencial.

    O clube precisa ter um modelo técnico-tático desde a mais tenra idade e o técnico do Departamento Profissional – seja ele composto por quem for – deve necessariamente manter esse padrão. Do contrário, o Grêmio nunca mais terá uma “cara”.

    Por modelo tático não entenda-se diagrama nem desenho: 442, 433, 352, 4321, 4312, 541, 631, etc. são o de menos, pois dependem do contexto do momento em função da necessidade de superar os adversários de ponta. O modelo tático refere-se à questões como marcação sob pressão adiantada para retomar a bola quase na área do adversário, mesmo correndo o risco de sofrer um contra-ataque; ter a posse de bola, trabalhar o “estado da arte” no fundamento passe e manter uma dominância total de área a área; esperar no próprio campo, marcar com muita intensidade e atenção e lançar laterais e/ou meias e/ou atacantes abertos; privilegiar a bola parada e assim por diante.

    Se o Grêmio formar seus próprios técnicos a partir de uma metodologia própria, sempre que um técnico nos deixar, o seu substituto será formado em casa, como no caso do Barcelona. Hoje, os técnicos itinerantes que dependem de uma política de contratações eminentemente compradora podem seguir como nômades porque os jogadores que vêm de fora são predominantes e, assim, são tão nômades quanto os técnicos. Porém, se preferíssemos formar os jogadores em casa e gastar mais para retê-los do que para comprar os de fora necessários às posições carentes, também poderíamos proceder da mesma forma com os técnicos.

    Afinal de contas, de que adianta formar jogadores e manter um modelo técnico-tático nas categorias de base se os jogadores não puderem ser aproveitados imediatamente em função de preferências pessoais de técnicos do dpto. profissional importados?!

    []s,
    Hélio Sassen Paz
    Grêmio Sempre

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