A IDEIA DE UM TIME DE FUTEBOL

Montar um time de futebol que bote faixas no peito e taças no armário é tarefa complicada. A receita de sucesso com certeza não está só nos jogadores, por mais talentosos que eles sejam. Sem direção, comissão técnica, torcida e infraestrutura é praticamente impossível atingir um bom padrão de jogo e aquela mentalidade vencedora que faz diferença nas decisões. Mentalidade que o Grêmio de Renato Gaúcho, que em certos momentos atingiu um bom padrão de jogo, não teve na Libertadores e na final do Gauchão. Enfim, no futebol não basta jogar bem. Tem que ganhar.

As grandes equipes do Grêmio que vi jogar sempre aliaram um bom (às vezes muito bom) nível técnico (o que depende muito dos jogadores e do técnico), com uma vontade acima da média de passar por cima das dificuldades, entrar em sintonia com a torcida e ganhar as partidas que realmente interessam. Acho que essa mentalidade depende muito mais da direção (presidente e diretor/vice de futebol) que da comissão técnica. Cabe aos dirigentes fazer a ponte entre o time a torcida, além de pressionar técnico e jogadores para que eles mantenham a ideia fixa no título, em vez de pensar em coisas mais amenas.

O ano de 2012, que será encerrado com a inauguração da Arena, começa com algum otimismo na torcida. Eu mesmo, que sou muito mais um torcedor que um Conselheiro, estou mais animado. Há novos jogadores, há um novo técnico, há um esforço evidente da direção em montar um time com a cara do Grêmio. Saberemos se esse esforço deu certo no final do ano. E aí não vai dar tempo de fazer coisa alguma. Criticar depois de saber o resultado é fácil. Acho que as críticas para um trabalho que está começando são muito mais importantes que as endereçadas para um time que está se despedindo. Por isso, resolvi fazer uma espécie de diagnóstico desse novo momento do futebol do Grêmio, tentando enxergar nos diversos setores do clube o que eles podem fazer para tornar 2012 um ano de títulos.

JOGADORES – As contratações já feitas (Kleber, Marcelo Moreno, Marco Antônio, Léo Gago) parecem ser de qualidade. Nosso ataque vai melhorar com certeza. O meio-campo também. Se vier o Giuliano, ou alguém com a mesma capacidade de movimentação, o Douglas vai jogar bem outra vez. Temos bons goleiros e laterais. Acho que Saimon é excelente zagueiro. É óbvio que falta alguém experiente pra jogar ao lado dele. É por isso que a torcida está otimista. Estamos com um grupo de jogadores quase pronto. Algumas pessoas perguntam de onde veio o dinheiro para essas contratações e desconfiam que o orçamento pode ficar desequilibrado. Depois de alguns anos no Conselho, vendo os balancetes e os eternos pedidos de suplementação, estou convencido que orçamentos desequilibrados e dívidas que nunca terminam são a regra no futebol brasileiro. E isso acontece mesmo quando só são contratados jogadores ruins.

TÉCNICO – Por uma dessas coincidências do destino, em dezembro eu estava no terminal velho do aeroporto, esperando uma amiga que vinha do Rio de Janeiro, quando vi o Baidek, que nitidamente estava aguardando alguém. Eu sabia que ele era o empresário do Caio Júnior, que era esperado naquela dia em Porto Alegre. Foi fácil deduzir que o Caio estava chegando naquele vôo e confirmei isso com o próprio Baidek. Não deu outra: cinco minutos depois, o Caio desembarcava, quase incógnito, para assinar com o Grêmio. Fui o primeiro torcedor do Grêmio a apertar a mão do Caio Júnior e desejar boa sorte pra ele. Acho que a direção acertou na escolha. Ele está muito a fim de botar faixa no peito e taças no armário. Espero apertar a mão do Caio mais vezes, pra dar parabéns.

DIREÇÃO – Quando o Pelaipe voltou, a gente já sabia que o estilo do departamento de futebol iria mudar. O Antônio Vicente é tranquilo, educado, discreto, embora também saiba ser firme e incisivo em algumas situações. No futuro ainda vai ajudar muito o Grêmio, tenho certeza. O Pelaipe é agitado, às vezes não mede as palavras, é pouco discreto (pra dizer o mínimo) e sabe dialogar com a torcida. São estilos opostos. A questão é: qual estilo funciona mais com os jogadores? Depende. Acho que, neste momento de construção de um time novo, o maior arrojo do Pelaipe foi ponto positivo. Deu uma encarada séria no Douglas, contratou e dispensou jogadores com convicção. Ele também soube chamar a torcida e prometer coisas. Ótimo. Mas agora é o momento dele sair um pouco de cena e agir nos bastidores. Não pode haver exposição demasiada. Desgasta rápido. Vamos ver se o Pelaipe sabe, a partir de agora, dar espaço para o treinador. Uma personalidade forte como a do Pelaipe precisa dosar suas aparições, ou vai atrapalhar o técnico.

O presidente Odone, por sua vez, que estava muito preocupado com o futebol ruim de 2011, deu carta branca para o Pelaipe reunir recursos (fala-se num conjunto de investidores) e contratar. É o primeiro passo, e Odone tomou a decisão certa. Não existe futebol sem riscos. A Arena tem que ser aberta por um time que chame a torcida e alimente esperanças. Ou nem vale a pena ter estádio novo. Mas o Odone às vezes tem a mesma personalidade forte do Pelaipe. Tem rompantes. Não sabe medir com exatidão as consequências de suas ações. Só um exemplo: tem o hábito de dizer que seus eventuais críticos não são gremistas. Fez o mesmo há pouco, num jantar com torcedores em Bento. Não há ofensa maior para um gremista que ser taxado de não gremista. É o tipo de coisa que um presidente não pode fazer, mesmo que tenha vontade. Assim como ele não pode falar mal do Renato, ídolo de todos os gremistas que eu conheço, e um dos melhores técnicos que tivemos nos últimos tempos, que nos tirou da zona da degola e nos colocou na Libertadores. Pode ter se enganado depois, pode ter feito (e dito) bobagens, mas deixou um saldo muito positivo. É uma grande ironia, mas Odone tem que ser mais político.

Por outro lado, quando acerta o tom do discurso, Odone é muito eficiente e sabe dialogar com a torcida. Se ele souber usar bem sua retórica, especialmente com a imprensa, terá papel importante na recuperação do futebol. Contudo, o sanguíneo Pelaipe não é o melhor conselheiro para Odone. Acho que o Antonini (de perfil executivo, empreendedor, que não foge da briga) também não é. Ele precisa de alguém como era o Carioca (discreto, agindo nos bastidores). Como era o seu Petry, com sua economia interna. Eu diria que Odone precisa dividir o poder com pessoas diferentes dele, capazes de agir mais e falar menos. O Raul Régis, por exemplo, tem esse perfil. Ele deveria ser ouvido sempre com atenção dobrada. O grande governante não é o que manda melhor. É o que coordena melhor uma equipe formada por várias pessoas, de diferentes perfis e habilidades. Centralizar demais é o primeiro passo para desagregar e provocar brigas internas. Democratizar uma gestão é tirar o que cada um tem de melhor.

Uma palavra rápida sobre Comunicação e Marketing. Sabemos que as lojas do Grêmio têm faturamento expressivo e crescente. Suponho que os produtos licenciados também vão bem, obrigado. Uma torcida maravilhosa como a do Grêmio sempre vai consumir camisetas e réplicas do Olímpico. Mas as ações do marketing junto ao torcedor me parecem erráticas. Troca a diretoria, e parece que tudo começa da estaca zero. Fica mais difícil. O que aconteceu com o Exército Gremista? Eu, que fui obrigado a servir como recruta raso por um ano no glorioso EB, não simpatizava com o nome, mas fiz um esforço, me alistei e… Agora nem soldado sou mais? No site, a expressão atual é “Cadastro do torcedor gremista” (um nome sem sal, pior que Exército), e há uma promoção chamada “Goleada tricolor” (sem sal e sem pimenta). Também faltou sensibilidade pra explicar melhor aos sócios o aumento da mensalidade. Enfim, lidar com a torcida e com o quadro social exige bom senso e objetivos de longo prazo. Talvez a Arena possa servir como uma espécie de novo “marco zero” para uma política de relacionamento que seja DO CLUBE, e não desta ou daquela direção. Um verdadeiro planejamento estratégico fica acima do resultado das eleições.

INFRAESTRUTURA – A Arena vai mudar o Grêmio? Tenho certeza que vai. E pra melhor. Assim como o Olímpico, que meu pai ajudou a construir, melhorou o Grêmio da Baixada. E o Olímpico Monumental (ampliado e coberto), do presidente Dourado, melhorou o Grêmio do primeiro Olímpico e marcou o período de nossas maiores conquistas. Precisamos fazer o torcedor se apropriar do estádio. E não esquecer os torcedores mais modestos, com menos recursos. Assim como há um espaço para a avalanche, que é determinado fisicamente e não tem cadeiras, temos que ter um espaço para quem ganha um salário mínimo e faz um esforço sobre-humano para ir aos jogos, em vez de ver pela TV. A Arena é nobre e tem que custar caro, dizem alguns. Tudo bem. Que 95% dos lugares sejam nobres e caros. Mas que 5% sejam populares e baratos. Vamos tirar as cadeiras de mais um setor, bem lá em cima, e estabelecer um teto máximo para a entrada. Até pode prejudicar um pouco a arrecadação (pois imagino que irá lotar sempre e render abaixo da média do resto do estádio), mas, a longo prazo, tenho certeza que será muito bom para o Grêmio. É a minha sugestão.

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No mais, o que o torcedor quer é disputar títulos. Nem sempre se vence, e o futebol é bastante imponderável às vezes, mas o Grêmio, pela sua grandeza, pela sua liderança histórica, tem a obrigação de disputar qualquer campeonato com chances reais de vencê-lo. Que 2012 seja um ano de estádio novo, faixas novas no peito e taças novas no armário. Basta fazer algumas correções da rota agora, no começo do ano. Nosso problema não é a disputa política interna, como dizem alguns, que devem ser fãs de ditaduras e oligarquias. A política é a única forma de tomar decisões com consciência e diálogo. Dá muito trabalho e às vezes é muito chata, mas funciona a longo prazo. Nossos problemas são sempre depois da posse, causados por diretorias que não conseguem fazer comissão técnica, jogadores, torcida e infra-estrutura funcionarem organicamente. Brigar pelo poder é essência da democracia. Mas também é preciso lutar para que os vencedores de uma eleição sejam democráticos, convivam com a oposição, com as sugestões e com as críticas, venham de onde vierem. O Grêmio é dos seus sócios e dos seus torcedores. Em janeiro de 2012 eles estão otimistas. Temos que trabalhar, todos juntos, para que esse otimismo se justifique em dezembro.

Carlos Gerbase

3 comentários para “A IDEIA DE UM TIME DE FUTEBOL”

  1. João Antonio Braga da Silva disse:

    Caro Companheiro Carlos, parabéns, você tocou em pontos fundamentais da nossa vida de Tricolor, a Direção, o CD, Associados, Funcionários e Torcedores. temos que ser uma família exemplar sob todos os aspéctos, deixar de lado as mumunhas de seitas, de grupos e passar a unificar nossos sentimentos em torno do nosso Grêmio.
    Muito Obrigado.
    João Braga, S. 62092

  2. Arthur disse:

    Excelente matéria!
    Conteúdos como este (esclarecedores e realistas) também são fundamentais para a torcida.
    Parabéns!

  3. Rodolfo Matta disse:

    Belo texto!
    Que bom que o Grêmio tem conselheiros desta estirpe.

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